Crítica do filme Transcendence

Figura1_Capa

Recentemente assisti ao filme Transcendence. Como já realizei algumas pesquisas em algumas das áreas abordadas neste filme, resolvi escrever este post com um ponto de vista técnico do que foi proposto na película.

Antes de começar a falar um pouco sobre pontos específicos já vou deixar avisado que o texto abaixo contém alguns spoilers leves sobre o enredo. Nada que possa prejudicar o entretenimento, mas que talvez possa revelar alguns detalhes da trama.

Para começar é interessante notar que o principal tema abordado, a transferência completa da mente para um computador, é algo relativamente comum na literatura cyberpunk e em diversas obras de ficção científica, tanto em livros, animes, filmes e jogos. Já até escrevi um pouco sobre isso neste post.

O primeiro ponto técnico que destaco do filme é o uso de processadores quânticos. Atualmente a maioria das pesquisas está caminhando para a direção de processadores baseados em tecnologias como a tomografia e outros. Até onde sei, as pesquisas mais recentes na área envolvem algo em torno de computadores quânticos com aproximadamente 10 qubits.

Sem contar que mesmo que existissem os processadores quânticos citados no filme é preciso novos algoritmos, linguagens de programação [PDF] e diversos outros elementos de software que ainda estão muito longe. Existem muitos trabalhos nesta área, mas acredito que mesmo se tivéssemos um processador como o que mostrado no filme ainda estamos muito longe de utilizar o software que temos hoje nele.

Sim, isso é como um processador quântico atual se parece

Sim, isso é como um processador quântico atual se parece

Outra área interessante relacionada ao que foi mostrado no filme é aquela que estudo a computação neuromórfica [PDF].  Muitos avanços para a compreensão de como o cérebro funciona foram apresentados pelos pesquisadores desta área que tem como objetivo construir um computador que funciona de forma semelhante a um cérebro. O estado da arte é algo como um computador que consegue simular 100 neurônios. Ou seja, ainda estamos um pouco longe dos bilhões de neurônios de um ser humano.

Outro aspecto interessante abordado na película foi o uso de tecnologias de BCI. Já realizei algumas pesquisas sobre isso (aqui, aqui e aqui) e já até escrevi um post neste blog sobre filmes com esta temática.  No Transcendence os pesquisadores empregam um BCI do tipo invasivo (aquele que requer cirurgia) e citam a capacidade de captação de todas as sinapses em tempo real, primeiro em um macaco e depois em um humano. Bem, atualmente as pesquisas de ponta considerando BCI invasivos conseguem ler aproximadamente uma  centena de neurônios e ainda estamos muito, muito longe de captar em tempo real todas as sinapses. O filme convenientemente não cita o fato que as conexões entre os neurônios estão constantemente sendo modificadas.

Esquema básico de um BCI invasivo

Esquema básico de um BCI invasivo

E mesmo que sejamos capazes de capturar todas as conexões do cérebro em tempo real nada é garantido, ou seja, os cientistas da atualidade ainda debatem se realmente seria possível replicar a sequência de disparos dos neurônios (a passagem de corrente elétrica entre os dentritos) como é feita em um ser vivo. Isso sem contar detalhes como seria a consciência, emoção, personalidade, senciência e a famosa autoconsciência citada diversas vezes no filme.

Figura4_IAPor fim, o filme possui um grande foco no desenvolvimento de uma IA (Inteligência Artificial). Este tópico vem ganhando muito destaque na mídia atualmente devido a eventos onde computadores conseguem ganhar de seres humanos em jogos de xadrez, perguntas e respostas e outros. Considerando a realidade, estamos fazendo muito progresso em relação à fidelidade da simulação de uma pessoa com uma IA, mas ainda estamos muito, muito longe de apresentar as características e funcionalidades da IA que foi apresentada no filme. De fato, os diálogos do filme falam muito sobre redes neurais e neurônios artificiais. Estas palavras causam efeito e impressionam, mas elas não consideradas são as melhores técnicas para o tipo de IA citada no filme.



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Uma resposta a Crítica do filme Transcendence

  1. Pia Torres disse:

    Interessante e divertido que eu não posso negar. Eu gostei, havia muitos elementos que pareciam muito atraente para mim, a sequência de ideias foi bom, mas alguma coisa aconteceu durante esse filme que não se conformava Trascender; no entanto, é um muito interessante para quem gosta de filme de ficção científica, o colapso da humanidade e do governo conspirações. Ele tem seus contras, mas é definitivamente interessante perguntar-nos mesmo com filmes, dilemas éticos que existem na ciência e desenvolvimento. Nós dois estamos dispostos a sacrificar a nossa ética e morais, a fim de salvar vidas; um debate que queima quando se trata de células, nanotecnologia e ciência médica-tronco.

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