Enxergando o que ninguém vê

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Recentemente tive contato com algumas pesquisas muito interessantes na conferência CHI 2013. Vou escrever aqui no blog alguns posts falando sobre ideias, conceitos, protótipos, inspirações e outras coisas que, de uma forma ou de outra, acabaram chamando a minha atenção.

Neste post vou falar um pouco sobre alguns trabalhos que representam aquela observação que quase ninguém consegue perceber. Isso é representado pela frase enxergado o que ninguém vê. Vou focar em alguns aspectos da programação e também e usabilidade neste post, porém este tipo de comportamento pode ser encontrado em qualquer lugar.

Para começar vou recorrer a um tipo de intervenção artística que representa bem este conceito: a street art. O conceito é que o artista observa um local comum de uma cidade e consegue visualizar como completar o que está faltando e montar algum tipo de arte. Por exemplo, observem as figuras abaixo e notem como o artista consegue enxergar algo que ninguém vê e montar uma a obra de arte.

Muitos viram apenas um bueiro. O artista viu algo mais e representou um vício

Muitos viram apenas um bueiro. O artista viu algo mais e representou um vício

Como apenas dois montinhos de grama podem virar algo diferente e alegre.

Como apenas dois montinhos de grama podem virar algo diferente e alegre.

Um letreiro desbotado pode virar uma alusão à diversão

Um letreiro desbotado pode virar uma alusão à diversão

 

Duas caixas monolíticas podem transmitir a sensação de companheirismo/tristeza

Duas caixas monolíticas podem transmitir a sensação de companheirismo/tristeza

Voltando para a área da computação, existem várias pesquisas e ideias que conseguem enxergar além do que está lá para, muitas vezes, realizar uma crítica ou propor outra forma de pensar que vai além do que a maioria das pessoas está acostumada. Vou citar alguns exemplos que recentemente chamaram a minha atenção.

Um trabalho interessante que vi em 2010 e que considero algo que poucas pessoas enxergaram foi a proposta da Julia Schwarz. Ela abordou o modo como eventos são tratados na maioria das linguagens de programação: geralmente temos um controle da interface (como um botão) e associado a uma ação sobre este controle (como o click) temos um método que permite a programação do que se deseja fazer quando a ação é realizada. Isso implica em um modelo onde os inputs acontecem exatamente como foram gravados. Mas e se desejarmos representar algo mais natural como, por exemplo, clicar (ou tocar) em no espaço entre dois botões e disparar o evento click dos dois ao mesmo tempo? Este é um tipo de interação que pode ser feita na vida real e que não é suportado nas interfaces atuais. Neste contexto o trabalho da Julia vai além do tratamento padrão para os eventos e atribui uma probabilidade de ocorrência de ações. Este é o tipo de exemplo onde alguém observa o que já existe e propõe algo que poucos enxergam.

Outro caso é a pesquisa sobre a usabilidade dos displays digitais de sete barras que permeiam diversos mostradores e aparelhos. Na pesquisa de Harold Thimbleby nota-se que pela utilização ubíqua deste tipo de mostrador eles podem gerar problemas em algumas situações (ler de cabeça para baixo, não enxergar o ponto decimal, trocar letras por números, etc) e que poucos fabricantes se preocupam com isso. O trabalho é inovador por mostrar que pouca gente presta atenção neste tipo de display e que ele pode ser melhorado para evitar problemas. Novamente, o pesquisador resolveu se concentrar em algo que todos vemos, mas que poucos enxergam.

Outro exemplo: muitas interfaces tem dificuldade para se adaptar aos aparelhos que permitem interação multi-toque. Simplesmente foçar o usuário a utilizar os controles e elementos da interface do mesmo jeito que utilizamos com o mouse não dá certo. Por isso cito o exemplo do projeto TouchViz que mostra novas formas de trabalhar com gráficos considerando interfaces  sensíveis ao toque. Destaque: o vídeo abaixo mostra que é possível filtrar dados fazendo um gesto parecido com o de uma barreira que vai separando os dados como uma peneira tivesse sido utilizada. Mais uma vez, outro exemplo de como observar algo da realidade que poucas pessoas notam e aplicá-lo no mundo digital.

Não sou muito de seguir esta linha de pensamento, isto é, questionar o establishment e propor algo novo, mas em um recente artigo para o iMasters falei sobre como me incomoda a informação de melhoria de desempenho em banco de dados citada na documentação sem que haja nenhum tipo de teste que comprove a afirmação. Quando escrevi este artigo e depois de sua publicação pude perceber que poucas pessoas despertam o sétimo sentido ou escolhem a pílula vermelha para sair da matriz. Na prática, poucas pessoas questionam o que é colocado de forma civilizada e argumentativa.

Para finalizar, outro projeto no mínimo curioso, mas que representa bem o que é observar o que é proposto e enxergar algo que pouca gente vê. Um grupo de pesquisadores de Taiwan notou que sempre que estamos utilizando um celular ou tablet (Android ou iOS) e resolvemos deitar a posição da tela é ajustada de forma incorreta. Isso pode parecer algo insignificante, mas realmente é uma epidemia pois muita gente sofre disso e não se incomoda de mudar manualmente a posição da tela. Mas o grupo de pesquisadores, que segue a linha de pensamento em que o dispositivo deve se adaptar as nossas necessidades e não o contrário, resolveu instrumentar com sensores os dispositivos e realizar uma pesquisa importante sobre como automaticamente redirecionar a tela do aparelho de acordo com a forma de segurar o dispositivo. Este link mostra um pouco sobre esta pesquisa cujo projeto recebeu o nome de iRotateGrasp.




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